E cá estamos nós, rodeados de mais uma polêmica daquelas que não tem razão de ser. Talvez porque o Brasil venha experimentando um momento de intensa superdimensão discursiva, que faz qualquer ruído parecer um grito e que se é capaz de bastante coisa pra figurar entre os mais ruidosos. Não pode existir melhor palco para isso que as badaladas redes sociais, estas meninas que vem se pretendendo inquestionáveis quando assunto é qualquer assunto.
Destaco: Na última semana foi ao ar uma propaganda do Partido Social Cristão com uma equação bem didática do que este grupo político entende por família: homem + mulher + amor = família. Pra que? Estava armado o reboliço, que começou na afirmativa de fé contida no nome do partido e foi até onde os simpatizantes de todas as bandeiras não incluídas no singelo cálculo conseguiram esbravejar. Até aí, tudo certo, uma democracia se faz consistente exatamente na existência simultânea de posição e contraposição.
Acontece que reivindicavam os vorazes detratores da propaganda do partido pelo direito de serem homossexuais, famílias compostas por mães solteiras e outros agrupamentos familiares que não àquele, também incluídos na somatória. Ou melhor: Afirmavam que a não inclusão tinha, obrigatoriamente, um caráter exclusivo. E daí a chuva de adjetivos amplamente difundidos e usados sem nenhum pudor neste sem fim de especialistas do todo: Homofóbicos! Conservadores! Fascistas! Hipócritas! - sem contar nos que evocaram com a boca cheia de garbo a laicidade do Estado, que de uns dias pra cá parece ter se unido aos valores elementares da vida de muitos dos internautas guardiões da criticidade.
Convém, então, diante de tantos equívocos, alguns esclarecimentos: 1) Partido é facção. É, evidentemente, parte. Juridicamente, uma organização privada de pessoas que se unem voluntariamente em torno de demandas afins com vistas a disputar poder político. Logo, nenhum partido político tem como objetivo abranger e divulgar todas as visões de mundo presentes na sociedade da qual participa, senão a sua própria. Para as outras demandas, outros partidos, outros discursos. Nesta diferença residem as disputas de poder que garantem uma maior representatividade de todas as bandeiras na arena democrática. Supondo, claro, que estejamos falando de uma democracia.
2) Estado e partido político não são sinônimos. O Estado é laico e tem que ser, os partidos não são e não tem que ser. Até porque, o Estado Laico é aquele que não tem uma religião oficial, antes, permite que todas as religiões e crenças se manifestem igualmente. E, por se manifestar, entende-se não apenas o direito de culto, mas de organização política e disputa de poder. Quem não se sentir contemplado por um partido cristão, procure um não-cristão ou, na mais radical das hipóteses, anule o voto. É bastante simples.
3) A propaganda trabalha sempre com tipos ideais e uma peça de marketing de determinado produto, além de idealizá-lo, não vai se ocupar em apresentar produtos alternativos a ele. Disso cuidam os próprios interessados. A propaganda da coca fala de si, a da Pepsi também e assim por diante.
4) Logo, não houve homofobia, afronta constitucional ou contra a laicidade na propaganda do PSC. Apenas um partido político cumprindo com o seu papel de veicular pelas vias legalmente asseguradas, uma da bandeiras que justificam sua existência. Assim como fizeram, por exemplo, o PSOL e o PSTU, quando se posicionaram favoráveis à união estável de homossexuais e ao aborto, bandeiras sabidamente paralelas às defendidas por cristãos. As escolhas conseqüentes dessa exposição de cosmovisões e projetos de sociedade devem ser as de votar, discutir, concordar ou discordar. Não as de banir, silenciar ou criminalizar, como querem alguns simpatizantes das tantas causas de que muito se ouve falar e pouco, de fato, se sabe.
Adorei o post! Muito bem escrito! Entendi perfeitamente seu ponto de vista e respeito muito. Mas acho que a discussão não é tanto pelo direito do PSC de discursar sobre o que eles acreditam, mas sobre o discurso deles ter o objetivo de subjugar um grupo específico e de cercear seus direitos, como a leitura literal da bíblia tem feito desde o último século. É esse tipo de discurso "inocente" que promove o ódio daqueles que não entendem do assunto. Não é por engano que a cada 1 dia e meio um homossexual é morto apenas por sê-lo. Mas arrasou na postagem! Beijos!
ResponderExcluirAssino embaixo, coloco digital e até faço um smile sorrindo. Vc é FODA. Sem mais.
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ResponderExcluirMuito bom o post, Aava. Concordo plenamente! Se o país é democrático tem que se respeitar o direito à opinião. O que acho mais interessante é que quando partidos estão envolvidos em corrupção, não se vê esses inúmeros comentários de ódio, nojo e etc. em suas páginas. Agora quando um partido quer defender a família, as pessoas agem como se ele tivesse roubado dinheiro da saúde ou da educação. Tudo bem defender seu ponto de vista, mas com o devido respeito. Porque DEMOCRACIA também é isso.
ResponderExcluirTexto bem pontuado. Geralmente se esquece que o direito, tão caro à democracia, de se falar é uma via de mão dupla: direito de falar e de ouvir. Da mesma forma que temos direito de lutar pela união estável homoafetiva, ao aborto, etc. também tem o direito aqueles que defendem o contrário. Anti-constitucional será quando qualquer um dos dois lados for silenciado ou proibido de se manifestar. Neste ponto sim, teremos problemas, demandas a serem questionadas no espaço público e motivos para reações dignas do nome que carregam.
ResponderExcluirPArebéns pelo texto escrito de forma impecável...é desse jeito que temos que defender nossas idéias e sonhos...Mas a democracia começa onde indivíduos se respeitam e se aceitam do jeito que são...mesmo que suas opiniões venham a divergir em algum momento. Mas essa mesma energia e disposição deveríamos ter quando a roubalheira, a corrupção, o desmando e a injustiça toma conta de nosso país. onde estamos que não vamos as ruas e defendemos esse tipo de senso...Perfeito o que o Pedro Lucas (nome inclusive de um dos meus filhos, rs) Anti-constitucional será quando qualquer um dos dois lados não poderem mais se manifestar e defender seus pontos de vista, aí voltaremos a ditadura e aos tempos damordaça...
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